Monday, June 19, 2006

O fim

O fim raramente existe sozinho. Penso que, na maior parte dos casos o fim coincide com o início. A questão é que o início de quê? Hmm? O início de quê?

Adeus.

Tuesday, April 18, 2006

Cirros

Aqueles silêncios que são infinitos cortam-nos em fatias. Fatias finas da grossura de um átomo, que flutuam mudamente. Quando duas fatias se encontram entrelaçam-se sem aparente ordem ou princípio organizador. Criam-se permanentemente enormes superfícies de fatias humanas. Há quem os chame cirros ou cirrostratos. Errado. Nada têm a ver com as nuvens. Têm a ver com o imenso silêncio que existe no mundo. E essa é a verdade.

Não me procures mais...

Não me procures mais, para de percorrer com o olhar as ruas, o parque de estacionamento. Deixa o vai e vem , de St.ª Apolónia as caras desconhecidas de quem corre, sabe lá para que. Estou aqui, na tua sombra!Caminho contigo, sombra a sentir pele, no teu andar ando, sou a tua sombra deslizante.Joana, sorri, eu estou aqui, não me procures, estou em ti.As tuas botas chapinham e molham-me, sorrio, á quanto tempo não sorria, cheiras a vento fresco, ao mar das Berlengas, a sonhos.

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Encontrei-te, Jo!

Encontrei-te, Jo!Aqui no meio das folhas da Primavera, entre os muros frios do Museu da Marinha, é manhã, nas arcadas escorre o frio da noite e do Tejo vêm o bafo podre do rio desvirginado.Jo, deixaste-me, esqueceste-te de mim no meio dos papéis desarrumados do teu quarto.Perdi-me de ti em ti. Como o poema que fizeste para o António – “Como o sol e a Lua, estamos sempre separados”.Cruzei Lisboa matando o tempo com 130k de Ritinha, com pombos mortos a arrastar na memória.Agora aqui parado á tua frente, perco todas as lutas que me tornaram XXX, estive em todas as tuas aulas, tu estás em todos os meus sonhos.Paro o meu olhar no teu, Jo isto é o desejo, o sonho a loucura. Dos meus lábios gretados tenho uma voz muda que não sai, fixo-me no castanho dos teus olhos.Um carro trava com força e desvias o teu olhar, aproveito o momento e integro-me na tua sombra, agora, mais que nunca estou em ti!

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Wednesday, January 11, 2006

O Início é o Desejo

é o desejo que faz girar o mundo. o resto é mentira. desejar ou ser desejado é a chave. o amor? o amor vai mais tarde. nasce do desejo. quando nasce. e sobrevive-o. quando sobrevive. a verdade é essa.

Monday, January 09, 2006

bem no fundo

joanaaaaaaaaa ... deixo-me ir ... não me ralo ... quem quiser, tome conta de mim ... não preciso de ninguém, nunca precisei ... aaaaaaaaanjo
[és o início e o fim desta vida]

Friday, December 30, 2005

Jer., 23

Jeremias, 23: “A minha palavra não é como o fogo?” – diz o Senhor.

Fogo. Era fogo que ardia na garganta de António. A faca de mato atravessou-lhe o pescoço de uma ponta a outra e ficou preso no armário atrás. XXXX tinha saído pouco depois do acto consumado. António, demorou uma boa meia hora recuperar do primeiro choque e tinha percebido que poucas esperanças lhe restavam. A sua sorte era que a faca era extremamente afiada e entrou na carne como se fosse entrar em manteiga, deixando razoavelmente intactos os tecidos em redor da punção. O sangue não era demasiado e aparentemente estava seco. O António tento lembrar alguma coisa das lições do curso de medicina que deixou a meio. Tudo que lhe vinha a cabeça era um cartaz de anatomia com as artérias do pescoço.


- Que se foda as artérias – sussurrou o António e agarrando no cabo da faca com as duas mãos inclinou-se energicamente para frente libertando-se do móvel. ‘Se tirar esta merda do pescoço perco o sangue que me resta.’ Cambaleando, com a enorme faca no pescoço desceu para a rua para apanhar um táxi. Mas a rua estava praticamente deserta. Contudo, em frente do prédio vizinho estava estacionada uma acelera dos rapazes da Telepizza a trabalhar. O António não tinha tempo para perder. – Daqui até a Sta. Maria são 2 kms – pensou – Vamos lá motita.

O António acordou entubado ao som do seu batimento cardíaco nos cuidados intensivos do Hospital. – Sou um filho-da-puta de sete vidas – pensou com um sorriso e sucumbiu no sono.

Tuesday, December 27, 2005

A obra

Estava eu na minha cama rodeado de uma pilha de papéis quando o António, o maior intelectual que conheci tocou à porta. Bem pronto, não era uma pilha, eram três e o António também não tocou. Na verdade, ia desfazendo o botão da campainha com uma tentativa tresloucada de tocar Another Brick in the Wall dos Pink Floyd em “campainhês”. Tenho que reconhecer que sempre foi melhor do que quando ensaiou a Aída do Verdi durante quase um mês, ensaios que acabaram de uma forma dramática com um curto circuito que lhe deixou os cabelos literalmente em pé e que rebentou com os fusíveis do meu andar, causando o desespero da minha vizinha que estava a ver o último episódio de uma novela que devia ser muito interessante. Pelo menos a avaliar pelos gritos que ouvi devia ser mesmo muito interessante. Fiquei a pensar que devia ter visto a novela. O António vinha enrubescido, como se os plátanos se reflectissem na sua cara de uma forma quentinha e duradoura. Reconheci-lhe as cores do amor, a perfeição do sentimento, a honestidade das pupilas dilatadas. Ah o amor, fulgor que tudo embeleza e ofusca, que nos faz voar em qualquer vazio como gaivotas, que nos faz correr como garranos selvagens em qualquer campo disponível na nossa imaginação….
Estava eu perdido nas minhas considerações quando ouvi ao longe o António: “olha lá, andaste a fumar, parece que estás meio parvo!”. Sacudi um pouco a cabeça para colocar as ideias no lugar e sentei-me. Então ele disse-me a coisa mais inesperada do mundo: “Preciso que me escrevas um poema de amor para a Ritinha”. Ia-me dando uma coisa má! Eu, um poema de amor para uma peixeira de 130 kg? Mais depressa comia uma embalagem de Nestum de figo! Mas os olhos tristes do António revelaram a sua impotência em causa própria. O maior intelectual que conheci pessoalmente estava embatucado, empastelado, atascado, entupido de amor. E precisava de mim. E foi assim que surgiu a minha primeira obra prima, o quarto papel que hoje guardo emoldurado numa mica de dossier em cima da minha guitarra eléctrica. Rezava assim:


EM BUSCA DE TI

Tal como uma onda
Beijo as praias à tua procura
Tal como o vento
Chamo por ti
Tal como a chuva
Te acaricio
Tal como a trovoada
Te assusto
Tal como o sol
Te faço florescer
Tal como um cego
Tu não me vês
Tal como um mudo
Eu não te chamo
Tal como o sol e a lua
Estamos sempre separados


Bem, ainda me lembro da confusão! O António pensou que lhe estava a agoirar o namoro. Lá lhe expliquei que não era nada disso mas que estava a tentar explicar como era o amor entre almas gémeas que habitam os lados opostos da vida. Ele florescia à noite, nos bares e tascas rascas da cidade, ela nascia de madrugada nos pregões de uma Lisboa que amanhece. É como eu sempre disse. ligações iónicas, átomos de cargas contrárias atraiem-se.

Sofia Trovela

Monday, December 26, 2005

Plátanos

A espera de um sinal verde, levado pela dor pulsante dos arranhões da Ritinha, António, distraído, murmurou só para si: foi uma boa keka…

A satisfação que recordação trouxe, estampou um sorriso de uma criança na cara do António. Com as mãos nos bolsos das calças ele atravessou a Av. de Liberdade a assobiar. A avenida estava coberta de folhas, lágrimas castanhas dos plátanos que choram eras passadas. De chorar, António nada sabia. Ainda, nada sabia…

Por maldade, ou talvez não

Por maldade, ou talvez não, o óvulo é a maior célula do corpo humano - feminimo entenda-se!

Sobre o vale de Ritinha, fundo-escuro-como-mundo, debatia-se o espermatozóide A1002127, orientado pelo cheiro, como se de um insecto se tratasse, irremediavelmente perdido pelas feromonas que o chamavam!... Aquele óvulo, gerado ainda Rita era um embrião de um tamanho de um feijão, no utero de D. Madalena, estava-lhe guardado e, num truque do destino, tinha ficado armadilhado pelas suas feromonas.

Fazia 25 anos que R117 esperava ansiosamente pela sua cara-metade genética, de um passado incerto escarrado num qualquer penso higiénico, tinha agora, entre moléculas de controlo, um futuro radioso para escrever.

Ele nadou ansiosamente, activamente, desperadamente, cego, mas direito ao seu óvulo... Não que fosse dificil à menor célula do corpo humano (masculino, entenda-se) encontrar a maior célula do corpo humanao (feminino, entenda-se), mas a competição era muita...1002126 concorrentes, para ser exacto. E aqui, nesta corrida, não há prémio para o segundo!

Chegou exausto,com a energia da ultima molécula de ATP, a alimentar as suas mitocondrias. Resistira à corrida, fora o primeiro a chegar!!! E agora?

Bateu suavemente no poro nuclear, enfiando a cabeça pela abertura entreaberta, e perguntou timidamente - "Carga genética, para o óvulo, 117? R? é aqui?!"

Tipo seringa hipódermica, a injectar sonhos na veia de um incauto perdedor, descarregou a sua carga. Junto ao núcleo de 117R, as duas membranas nucleares desfizeram-se, em castelo, pela obra das cortantes lamínas nucleares.

Agora, cada um dos seus 23 cromossomas,estava fora da sua cápsula espacial, e extendendo a cromatina, em apertado controlo do batalhão de Cyclinas (Cdks), preparam-se para emparelhar, A com T, C com G, como numa dança de cadeira:

ATGCGGAATC
::::::::::::::::
TACGCCTTAG

A festa foi alegre e até teve música. Afinal, o exército das CDks era ... uma banda militar... Ao som dos acordes do controlo, todos os cromossomas se misturaram frenéticamente num crossing-over namométrico. No fim, já cansados, preparam-se para um novo ser, para SER!

A meiose, estava a chegar!...

Enviado por St&Co. como comentário.